quarta-feira, 17 de maio de 2017

Os Descordantes - Quietude



A música romântica sempre fez sucesso no Brasil, do rock ao sertanejo universitário, perpassando pela MPB e o samba, os temas de amores impossíveis, perdidos, encontrados, reencontrados, iludidos e desiludidos, sempre tiveram boa sintonia com o público. Independente do estilo, há uma facilidade do público de se reconhecer nessas histórias cantadas, para cada situação amorosa que se passar na vida há uma música em algum lugar que serve como expressão perfeita para os seus sentimentos.

Os Descordantes entenderam bem essa demanda, cantando desilusões amorosas em diversos estilos: rock, mpb, samba, brega, pop, evitando delimitar-se em um estilo único e denominando-se apenas como música romântica.  Resultou em se tornarem uma das bandas mais queridas da noite Rio Branquense e em seu primeiro disco "Espera a Chuva Passar", um compilado de todas as canções já executadas ao vivo ao longo dos anos, com algumas inéditas. Se o disco não deixou os músicos ricos, com certeza foi um sucesso entre seu público. Tanto que animou a banda a lançar mais um e assim chegamos ao segundo disco "Quietude".

O novo disco é um trabalho mais homogêneo que o anterior, calcado na MPB, trazendo referências a outros estilos e com toques retrô que, a mim pelo menos, remeteram à música romântica das décadas de 50/60. As músicas casam bem com o título "Quietude", mais calmas, leves e introspectivas. A canção de abertura, "Trem Fora dos Trilhos" já mostra a que veio o disco, ao invés dos pesados acorde de guitarra que abrem "Espera a chuva..." aqui é um piano suave que abre os trabalhos numa canção que me remete, em momentos, ao Radiohead da época do The Bends.

Meus destaques vão, em primeiro lugar, para "Desamor", segunda canção do play, de cara a minha favorita e a mais rock'n roll de todas, ela é seguida pela divertida "Iguais" de clima muito agradável, com direito a corinho de "ulálá's", perfeita pra bailezinhos retrôs anos 60. Na sequência a desiludida "Simplesmente" evoca o clima de “sofrência” do primeiro disco, não me chamou muito a atenção de primeira, mas ela vai crescendo na nossa mente, hoje já me pego cantando-a do início ao fim. Pra encerrar os destaques, o brega descarado volta lá pro fim do disco com "Vai Ver", essa utilização inteligente da música brega (daquele tipo que fazia sucesso nas rádios na vozes de Odair José, Reginaldo Rossi entre outros) sempre foi o grande diferencial dos Descordantes, fiquei feliz em ver que eles não esqueceram de prestar sua homenagem ao estilo nesse disco.

Se senti falta de algo, foi de uma maior variedade musical, como disse lá em cima o "Espera a chuva..." transitava, com naturalidade, por vários estilos: rock ("Descrença" e "Porto e o Rio"), samba ("Amigo Amarelo"), brega ("Hombridade" e "Sair Daqui"). Quietude me parece mais focado na MPB, não que isso seja um defeito em si, é mais pra uma impressão pessoal mesmo. Já estou pela décima audição do disco desde que recebi minha cópia (digital) e posso afirmar que essas canções vão crescendo a cada vez que se escuta o disco.

Com Quietude, os Descordantes fincam bases sólidas em sua identidade musical, sólidas o suficiente para sustentar um terceiro disco, se não vários outros.

Audição mais que recomendada.

Os Descordantes - Quietude
Diego Torres - Guitarra/Vocal
Saulo Melo - Baixo
Heriko Rocha - Teclado
George Naylor – Bateria




domingo, 9 de abril de 2017

Songs of Love and Death - Me and That Man


John Porter (esquerda) e Nergal (direita)
Pra quem está acostumado a ouvir Nergal pesado e extremo como líder da banda de Death Metal Behemoth certamente achará estranho e inusitado seu novo projeto Me and That Man. Aquele homem do título trata de um artista do folk chamado John Porter. Juntos ambos trazem luz (ou sombras) a um projeto com influencias como Johnny Cash e Leonard Cohen (repare na semelhança com o clássico Songs of Love and Hate). 

O resultado de um músico de death metal polonês fazendo música tipicamente americana não poderia ser melhor. Songs of... é possivelmente um dos melhores lançamentos do ano. Ao escutar o disco se tem a impressão uma gravação realizada no sul do Estados Unidos, mais provavelmente em Nashville. Temos country sombrio em My Church is Black, que soa como se Johnny Cash tivesse perdido a fé e se revoltado contra Deus; temos blues em Nightride, Shaman Blues, Magdalene, etc.; temos o garage rock de Better The Devil I Know e da canção título Love & Death. Sem um sinal de gutural, Nergal solta um vozeirão grave e profundo, um Cash das trevas, que casa perfeitamente com a voz mais rasgada e áspera de John Porter. 

A temática das letras, não muito diferente do próprio Behemoth, continuam sombrias, blasfemas e despudoradas, afinal que outro artista bota um coral de crianças pra cantar tal refrão:

We aint coming for forgiveness
We’re not paying for our sins
We betrayed you our sweet Jesus
We have chosen hell on earth

Nunca o despudorado deboche de Nergal ao cristianismo soou tão belo quanto nesse disco. Não deixe de conferir.

sábado, 1 de abril de 2017

Resenha - Emperor of Sand do Mastodon


Com um dos melhores trabalhos de vocal de sua discografia, além dos tradicionais peso, técnica e groove, que são marca registrada do Mastodon, esse novo disco supera seu antecessor, embora, do meu ponto de vista, não supere a excelência de The Hunter.
Emperor of Sand traz um toque mais melódico às canções, que longe de lhes tirar o peso, enriquece-as dando ares ora épicos (Jaguar God), ora introspectivos (Roots Remain). Conta ainda com a canção mais pop da banda "Show Yourself", cativante à primeira audição.
Há uma utilização maior dos vocais do baterista Bran Daylor, mais limpos, além do que Troy Sanders (baixo) e Brent Hinds (Guitarra) ambos vocalistas também, aliás os principais vocalistas na fase inicial da banda, vêem reduzindo o gutural e cantando mais limpo. O que pode tirar a agressividade do som, por outro lado abre horizontes pra banda explorar seu lado mais pop e produzir hits mais palatáveis para quem não é iniciado ao som.
Arrisco a dizer que esse é o disco mais leve da banda, ainda que soe como uma pedrada pra quem não é do meio do Heavy Metal, e o Mastodon parece contente em seguir por esse caminho. E eu tenho me agradado demais com esse viés, embora adore a primeira e mais agressiva fase da banda (dica: é ótimo pra se exercitar), essa nova fase tem mostrado que os músicos, além de competentíssimos compositores de Metal, também são ótimos compositores de melodias.
Gostei e recomendo.



domingo, 12 de março de 2017

Celulares e Gorilas - dois filmes com Samuel L Jackson

Sou fã de Samuel L Jackson desde seu famoso monólogo Ezekiel 25, 17 em Pulp Fiction e sinceramente acho ele um excelente ator. Porém, Jackson, apesar de talentoso, parece não se importar muito em fazer filmes B, aliás, não se importa em fazer filmes toscos mesmo, como esquecer o clássico Serpentes a Bordo ou aquele dos tubarões cujo nome nem lembro. Com certeza ele tem cacife suficiente para escolher só filmes fodões pra estrelar, mas acho que o maior interesse do velho Jackson é mesmo se divertir fazendo seu trabalho.

Particularmente não me importo, até me agrada saber que posso ver um dos meus atores favoritos brilhando num filme do cacife de Tarantino, num blockbuster da Marvel ou na produção B de um diretor que nunca ouvi falar com dois ou três filmes igualmente desconhecidos no currículo. O problema é quando o filme, além de B, é ruim e apesar de ter Samuel L Jackson ele atua tão mal quanto um ator de novela religiosa da Record, como ocorre no filme abaixo:


Cell (2016) - de Todd Williams 


Num belo dia um artista gráfico, Clay Riddel, desembarca no aeroporto de Boston quando todas as pessoas ao seu redor enlouquecem de uma vez e começam a agredir bestialmente umas as outras devido um sinal misterioso que sai dos celulares. Armado unicamente com seu portfólio, já sacando que tem uma parada apocalíptica rolando ele parte rumo a sua casa para salvar sua família (o clássico herói americano), no caminho ele encontra seus companheiros de jornada Tom e Alice, dois personagens convenientemente sem família pra salvar, que na falta de coisa melhor que fazer seguem com Riddel na sua jornada.

Lá fora o mundo tá dominado pelos zumbis (?), boto a interrogação, porque os sujeito não comem gente, simplesmente matam e depois começam a transformar os outros em zumbis também, mas não mordendo, lembra do sinal que saia do celular, pois então, ele começa a sair da boca dos sujeitos e enlouquecem (zumbificam) quem escuta esse troço perto do ouvido. No mais é isso, eles vão viajando por ambientes desertos com relativa segurança já que os tais zumbis desligam a noite, encontram outros sobreviventes e vão avançando até chegarem no final mais anti-climático possível. Tá vendo essa foto aí em cima, que remete a algum clássico de George Romero, pois é, lorota, mal aparecem cinco zumbis por cena e não vi helicópteros no filme.

O filme é baseado no livro Celular do Stephen King, que na moral, já escreveu coisas melhores, mas o livro até traz umas premissas interessantes, que bem exploradas por um bom diretor e roteirista podiam ter deixado esse filme muito mais interessante. Os zumbis são telepatas, comunicam-se entre si e funcionam como um organismo único, a noite todos param e ficam ouvindo uma misteriosa música que sai de seus aparelhos celulares e outros equipamentos eletrônicos que são reunidos pelos próprios zumbis. Com o tempo essa telepatia começa a afetar também os sobreviventes que são guiados contra a vontade para onde os zumbis desejam que eles vão, ou seja, além do incomodo fato de ter que lidar com o fim da civilização como a conhecemos e sobreviver a ataques de zumbis, nossos heróis precisam lidar com o fato de que os falecidos leem mentes e sabem exatamente tudo o que eles estão pensando. O plano pra deter as criaturas envolve uma trama até bastante engenhosa envolvendo o suicídio do cara de teve o plano e Clay Riddel, nosso heróis tendo que dar uma de Sherlock Holmes e sacar de última hora qual a ideia do sujeito pra destruir os zumbis telepatas. Isso ocorre lá pelas ultimas partes do livro e é a parte mais interessante.

Ocorre que no filme isso é aproveitado tão superficialmente que deixa até de fazer sentido, principalmente levando em conta o final sem noção, aliás, noção tem, não teve foi graça. 

Onde Jackson entra nessa história, ele faz o papel de Tom, o amigo de Clay Riddel, que é interpretado por John Cusack e só posso pensar que tanto Jackson quanto Cusack tavam devendo um favor a alguém pra terem feito uma atuação tão ruim e de má vontade, ambos estão no piloto automático, não conseguem fazer outra expressão que não a de tédio. O mundo tá acabando ao redor e eles com cara de fila de banco. Credo!

Esse filme podia ter sido dirigido por Eli Roth, que provavelmente não teria um pingo de respeito pelo roteiro de Stephen King (sim, foi o próprio escritor que conseguiu estragar ainda mais a própria história) e quem sabe teria entregado um filme decente. Isso já ocorreu antes em O Nevoeiro e ainda antes com o Iluminado, Kubrick transformou um livro bom num filme clássico, King odiou, mas se for pra King amar as adaptações de seus livros e entregar coisas como Cell, seria bom que os diretores dessem um foda-se pro que pensa o escritor. 

Kong - A Ilha da Caveira (2017) - de Jordan Vogt-Roberts
A nova releitura do clássico filme do Gorilão também tem a participação de nosso querido Samuel L Jackson, que aqui também, não entrega todo seu potencial de atuação, mas comparado a Cell essa atuação valia até um Oscar.

O filme acompanha a história de Bill Randa um executivo, empresário, sei lá o que de uma empresa que leva uma expedição a uma ilha desconhecida (no pacífico? Deve ser, sempre é no pacífico, não lembro bem desse detalhe), isso logo após o final da Guerra do Vietnam. Na expedição estão a tropa do Coronel Preston Packard (Jackson) o clássico chefão militar enlouquecido pela guerra, aliás, frustrado pela rendição dos Estados Unidos e louco pra comprar e vencer uma briga nova. Mas além das tropas Randa precisa de um especialista em sobrevivência na selva e vai a um puteiro na China encontrar James Conrad (Tom Hiddelston, num puteiro? Na china? É sério que eles querem me convencer que se vou num puteiro chinês em meados dos anos 70 vou encontrar Tom Hiddelston jogando sinuca e comprando briga lá, não cara, não convence) o mateiro, digo o guia da expedição, e por motivos que sei lá, levam também uma fotografa pacifista Mason Weaver (Brie Larson).

Formada a comitiva eles vão pra ilha, chegam lá de helicóptero, jogam bombas pra testar a sísmica do solo, o que irrita pra cacete o Kong que aparece do nada e mata metade da galera, o resto sobrevivente se divide em dois núcleos, os bonzinhos Hiddelston e Larson e os militares liderados por um emputecido Samuel L. Jackson que não quer nem saber de sair da ilha, quer é matar o macacão. 

O núcleo bonzinho obviamente vai encontrar a clássica tribo que mora na ilha, um sobrevivente americano da Segunda Guerra pra fazer a ponta comunicacional e vão aprender a história e Kong e como na real ele é o bonzinho e não vilão. Esse núcleo não funciona muito bem, o personagens não tem arco e entram e saem do filme do mesmo jeito, esquecíveis, exceto Hank Marlow, o sobrevivente da segunda guerra, uma graça do início ao fim do filme. O núcleo militar funciona melhor, são divertidos e muitos deles fazem a evolução do personagem na história, o que faz a gente realmente se importar com eles, já Packard, o coronel malvadão, faz o arco inverso, começa ruim e termina pior ainda em sua obsessão com uma vitória.

Lendo até aqui pode parecer que não gostei do filme, pelo contrário, eu adorei. Se seus personagens humanos não são lá essas coisas todas, isso pouco influencia, porque o filme não é sobre eles é sobre Kong e sua Skull Island, e que gorilão da porra senhores, o maior já feito no cinema, a ilha é belíssima, o que é ressaltado por uma fotografia sensacional, ótimos efeitos e cenas de ação de tirar o folego e afinal foi isso que os trailers prometiam e é isso que o filme entrega (e foi pra isso que fui cinema). O diabo do macacão faz picadinho de helicópteros, destrói montanhas, desse o cacete em lagartões gigantes em cenas muito influenciadas pela estética dos animes orientais. 

Kong é uma ótima atualização de história clássica que não busca prestar homenagens, mas abrir possibilidades pra exploração de novos horizontes, dizem que a intenção da legendary é criar um universo de monstros onde Kong, Godzila e até mesmo os Kaijus de Pacific Rim co-existam numa mesma realidade ficcional. Mas se não der certo também é um excelente filme de Kong, deixa um gosto de quero mais ao final. 

Ah, falei de Samuel L Jackson no início, pois bem, ele atua bem, cumpre seu papel, mas uma direção melhor dava pra ter espremido um pouco mais do ator e deixado seu personagem mais marcante. Não faz feio, mas a gente sabe dos potenciais de Jackson quando bem dirigido.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Escuta só: Figueroas


Quem aí tem saudade da Lambada? Quem ainda sabe o que é lambada? Bom, quem quiser relembrar ou conhecer uma boa opção é o grupo Figueroas que lançou seu segundo disco "Swing Veneno" nesse mês de fevereiro e é simplesmente sensacional.

Totalmente dançante, com letras minimalistas e bem humoradas o grupo resgata a Lambada com muita dignidade e estilo em músicas curtas e muito bem arranjadas. Não deixe de conferir.

Forte candidato a disco do ano (na lista Seringueiro Voador, é claro), já posso dizer isso.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Estrelas Além do Tempo - Figuras Escondidas

A segregação ao negros nos Estados Unidos era rídicula, matemática é incrível, a ciência levou homens ao espaço na ponta de um lápis. Essas foram algumas das impressões que ficaram em mim ao terminar de assistir o filme Estrelas Além do Tempo. Ou como no título original Figuras Escondidas. É exatamente disso que trata o filme, figuras que ficaram nos bastidores, figuras cujas inteligências eram usadas para o progresso da ciência, mas destinadas a permanecerem nas sombras.

A história é focada em Katherine, exímia matemática chamada para realizar cálculos e conferir as contas do grupo de cientistas responsáveis por levar o primeiro homem ao espaço. Além de contar também com duas coadjuvantes de peso Mary e Dorothy, ambas personagens fortes com arcos completos no filme. Todas as três mulheres, negras e talentosas, buscando a chance de serem reconhecidas numa sociedade extremamente racista como era o sul dos Estados Unidos na década de 60.

A segregação aos negros nos EUA, um dos focos principais do filme, é exposta ao ridículo, pois é mostrada com uma certa dose de ironia-cômica, as personagens não tomam a posição de vítimas e usam de toda sua esperteza para contornar as situações em que são colocadas por sua cor (vide a cena em que Mary consegue na justiça sua vaga para faculdade). Só Katherine protagoniza uma cena mais dramática envolvendo a questão racial, quando leva a famosa "mijada" do seu chefe por seu ausentar por quase 40 minutos por dia e ela joga na cara dele que tem que mijar no banheiro de negros há quase 800 metros do prédio onde ela trabalha, tomar café frio numa garrafa separada e receber um salário menor que seus colegas brancos.

Kevin Costner faz o chefão branco bonzinho Al Harrison, um personagem meio clichê, mas muito bem construído. Um personagem interessante, apesar dele próprio não se importar com questões de cor, também nunca tinha prestado atenção ao ridículo da situação que sua funcionária negra passava todo dia, até que ela finalmente lhe joga na cara. Jim (Sheldon Cooper) Parsons faz o papel do branco antagonista, mas que por fim acaba reconhecendo a capacidade de Katherine a cada sucesso matemático que ela vai conseguindo.

Katherine é uma personagem incrível, sempre ciente de sua situação ela vai, com inteligência e aos poucos, impondo sua inteligência sobre um grupo de homens brancos hostis, mas não tão bons quanto ela, galgando seu lugar onde jamais se imaginou que ela pudesse estar. A coroação de seu personagem acaba ocorrendo com Parsons cedendo e a tratando com o uma igual ao final do filme.

Outro foco incrível do filme é a ciência, um grupo de pessoas focados em levar o homem ao espaço, tendo que fazer cálculos jamais feitos antes. Levando o homem ao espaço graças a cálculos extremamente específicos feitos na ponta do lápis/giz. Além do que, cada vitória científica eram sempre os momentos em que a questão racial sumia no filme e todos esqueciam suas diferenças e focavam-se apenas em duas coisas: o sucesso da missão e derrotar os comunistas. Sim, obviamente temos citações à corrida espacial e á Guerra Fria, do ponto de vista "Deus Salve a América" é claro.

Mahersala Ali, que já tinha roubado a cena em Luke Cage como Cotton Mouth, aparece numa ponta aqui como interesse amoroso de Katherine, embora seu personagem não envolva a trama principal, esse cara é um ótimo ator, quero muito ver ele em Moonlight. Foi só eu ou alguém mais achou o Costner a cara do Michael Keaton nesse filme?

E o que dizer do trio principal de atrizes? Taraji Henson, Octavia Spencer e Janele Monae, brilham como verdadeiras estrelas em seus personagens. Você se identifica com elas, você torce por elas, você vibra com elas a cada vitória sobre a sociedade. Elas não deixam suas personagens caírem na pieguice, dominam as cenas em que aparecem.

Ao final das contas é uma história de superação, socialmente e cientificamente falando. É inspirador, olha eu gostaria de ter visto filme assim quando ainda tinha idade pra querer aprender matemática ou ser engenheiro. Quanto ao Oscar? Ainda sou #TeamAChegada, mas esse é um excelente filme, recomendo fortemente que você assista!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

40 anos do porco voador


Animals, décimo álbum do Pink Floyd, foi lançado no dia de hoje, 23 de janeiro, há exatos quarenta anos. A banda já tinha lançado dois discos marcantes "The Dark Side of The Moon" e "Whis You Where Here" que catapultaram a banda de mais um grupo de progressivo para fenômenos pop. Verdadeira máquina de lotar estádios e fazer dinheiro. 

Foi a partir de Dark Side que as letras de Roger Waters começaram a se tornar cada vez mais ácidas, processo que continuou em Whish... tornando-se, em Animals, também politizadas. O álbum, conceitual assim como seus antecessores, baseia-se livremente no livro de George Orwell, "Animal Farm" (A Revolução dos Bichos). Assim como Orwell fez uma metáfora da Revolução Russa usando animais, Waters faz uma metáfora da sua sociedade dividindo-a em cães, porcos e ovelhas. "Dogs" representando os homens da lei, "Pigs (Three Different Ones)" os políticos corruptos e "Sheeps" o povo sem pensamento próprio seguindo o líder. 

Musicalmente o disco oferece uma sonoridade mais enxuta, embora o disco seja basicamente composto de três longas canções mais uma curta e acústica introdução e encerramento. Há um peso maior nas canções e uma grande dose de ironia em cada uma, cortesia da vocalização de Roger Waters que exala sarcasmo no seu modo de cantar, ele canta em todas as canções do disco, Gilmour apenas canta a primeira parte de Dogs, de voz mais suave e melodiosa, faz com que o início de Dogs seja a única parte do disco que lembra a beleza onírica dos discos anteriores. Não que isso seja ruim, sendo a proposta de "Animals" ser uma paródia da sociedade britânica dos anos 70, o estilo de Waters cai como uma luva.

Outra característica interessante desse disco foi a notável redução da participação dos demais membros da banda. Waters é quem compôs a maior parte do disco e seu estilo claramente domina as canções, Gilmour divide com ele a composição de Dogs, mas só. Richard Wright não compôs nada para esse disco, isso apesar seu teclado ter destaque em diversos momentos do álbum, Nick Manson já não costumava compor muito na banda, mas sua bateria lenta e ritmada também é um ponto marcante do Floyd.

O relacionamento entre os membros do Pink Floyd já não andava bem no período de Animals e só pioraria causando o desmantelamento da banda na década de 80. Waters nesse período começou a acreditar que era o único grande compositor da banda e que era ele que a carregava nas costas, logo começou a querer se impor cada vez mais sobre seus colegas. Durante a turnê de Animals, irritado com um fã, Waters lhe cuspiria na cara, situação que o levou a imaginar um muro separando a banda do público. Essa ideia, somada a seus diversos traumas de infância, mas sua pose ditatorial sobre os rumos do Floyd culminariam num clássico chamado "The Wall", para o qual Animals funciona como uma forma de preparação, um ponto de ruptura do Pink Floyd a banda para o Pink Floyd de Waters. 

Obviamente a banda não sustentaria muito depois disso, e jamais seria a mesma depois, deve ser o preço que se paga por gerar tantas obras primas, mas estou me adiantando, a questão é que toda essa crise começou em Animals, ouça!



Caso alguém tenha se perguntado: por que porco voador no título, a foto que ilustra essa matéria e da estação termelétrica Battersea em Londres, a banda encomendou um porco gigante inflado a hélio pra ficar flutuando sobre a estação enquanto a equipe de fotógrafos registrava vários ângulos da imagem. Ocorreu que o porco se soltou dos cabos que o seguravam e saiu flutuando, mais tarde chegou a ser recuperado, mas no final das contas usaram um foto sem o porco e colaram a imagem por cima para a capa.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Jack the Joker na Progressive Metal do Spotify

Já falei da Jack The Joker por três vezes nesse espaço aqui, aqui e aqui  e por que tanta insistência em falar dessa banda? Porque acho eles muito bons. É uma das minhas bandas nacionais favoritas desde que meu amigo Oscar me apresentou eles, lá por 2013 eu acho. Em 2014 eles lançaram o primeiro disco In The Rabbit Hole e foi quando tive certeza que essa banda merecia ser conhecida e reconhecida no cenário metal nacional. 

Hoje o mesmo amigo que me apresentou a banda me avisou que duas músicas dos caras tinham entrado em um playlist oficial de Progressive Metal do Spotify, conhecido servido de streaming que vivo usando aqui no blog. As músicas "Volte Face" e "Brutal Behavior" tão lá listadas ao lado de nomes consagrados do Prog Metal como Dream Theater, Symphony X e Evergrey. 

Ainda não é o Grammy, mas um dia eles chegam lá. Acredito muito nessa banda. A playlist você confere aí embaixo.



domingo, 15 de janeiro de 2017

Sepultura - Machine Messiah

Existem duas coisas nas quais o Sepultura não tem interesse. Uma é perder sua identidade e a segunda é se repetir. Há uma pequena interseção entre esses dois pontos onde a banda consegue fazer um trabalho original sem deixar de ser quem é. Machine Messiah, seu 14º disco, consegue acertar precisamente nesse ponto ao se mostrar um disco moderno, original, inovador e ousado, até onde o limite da prudência admite para que sua sonoridade não deixe de soar Sepultura.

Muito da inovação nesse disco, a própria banda credita ao seu produtor, o sueco Jens Borgen, que teve total liberdade para opinar e trazer novas idéias às composições, tornando-se de certo modo o quinto integrante do Sepultura nesse disco.

Vemos um Sepultura trazendo elementos novos às suas composições. Um deles, cortesia de Borgen, é a orquestra tunisiana que dá um leve toque médio oriental às canções "Phantom Self",  "Sworn Oath" e "Resistance Parasites", sonoridade que caiu muito bem no som da banda, muito mais do que uma orquestra ocidental teria conseguido.

Outra novidade é Derrick Green explorando outras facetas de sua voz na faixa título "Machine Messiah", uma canção pesada, sombria e climática, e na música de fechamento "Cyber God", dois momentos em que o Sepultura soou, pelo menos para mim, como o Machine Head em seus mais recentes trabalhos, mas sem deixar de lado as características sonoridades do Sepultura, seja nos riffs ou no ritmo da bateria.

O Sepultura clássico aparece nas faixas "I am the enemy" e "Vandals Nest", trash acelerados, baseadas em riffs certeiros de Andreas Kisser, serão excelentes trilhas sonoras para as rodas de mosh quando tocadas ao vivo.

"Aletheia" para mim foi o patinho feio do disco. Mostra as capacidades técnicas da banda, com destaque para o baterista Eloy Casagrande, entretanto, apesar de ser uma composição ousada, para mim foi exagerada, tornando-se confusa.

A instrumental "Iceberg Dances" reúne o que de melhor tem o Sepultura, bons riffs, muito groove, musicalidade latina com utilização de instrumentos acústicos dando uma bela adição de harmonia ao peso da banda. A canção do disco que mais remete aos tempos de Chaos A.D. e Roots.

Machine Messiah é um dos discos mais interessantes do Sepultura, para mim é consideravelmente superior aos dois últimos "Kairos" e "The Mediator...", isso porque me mostra um Sepultura interessados em fazer coisas novas e com resultados excelentes como foram nos discos "Dante XXI" e "A-lex", discos que eu mais gosto da era Derrick Green. Torço para que a banda faça mais lançamentos como esse, com o olhar no futuro.

Disse lá no primeiro parágrafo que o Sepultura não é uma banda interessada em perder sua identidade, bem, se nos próximos lançamentos eles quiserem abrir mão um tiquinho mais da identidade em busca de novos sons, eu certamente não vou achar ruim. E você?





quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Moana - Um mar de aventuras ou uma jornada de autoconhecimento

Em determinado momento do filme Maui, o semideus, define a aventura como saber para onde se quer ir, sem que esquecer por onde você já passou. Alcançar esse equilíbrio entre o familiar e o desconhecido, passado e presente, o tradicional e o novo parece ser a verdadeira busca da jovem heroína do mais recente filme da Disney: Moana - Um Mar de Aventuras.

A jornada de Moana traça vários paralelos com o conceito de jornada do herói: o chamado para aventura; a reticência do herói; o mestre, no filme representado pela avó; o aliado, Maui (Semideus, transmorfo, heroi do mundo, em sua própria descrição); a superação dos primeiros desafios; uma ligeira derrota traumática e por fim a recompensa. Todas as características do estilo estão lá, entretanto, é em sua conclusão que Moana se revela muito mais uma jornada de autoconhecimento. 

Saber quem você é e onde está é a tônica que guia o filme, tanto em sua narrativa quanto nas canções tema que o embalam, todas excelentes diga-se de passagem. Da tradicionalista e conservadora Where You Are (Onde você está), cantada pelo pai de Moana, apegado a terra e à tradição de seus antecessores, à linda How Far I'll Go (Quão longe irei), onde a personagem principal expressa seu desejo de saber até onde pode chegar através do oceano, passando pela, também linda, Whe Know The Way (Conhecemos o caminho), canção dos ancestrais de Moana. 

A chave para o sucesso da aventura surge justamente quando Moana, após todos os quilômetros percorridos, lembra quem é e de onde veio e percebe onde quer chegar alcançando assim o equilíbrio entre as duas vontades conflitantes dentro de si o que a leva a descobrir quem ela é, e tal qual seus ancestrais, saber o seu caminho. E é através desse conhecimento que a personagem percebe que ao final não havia real vilão a ser derrotado, apenas recuperar o que há muito tempo fora perdido, tanto para si, quanto para Te Fiti, quanto para sua vila. 

Tudo isso é mostrado de forma leve, com muito humor politicamente correto e, o que mais me impressionou num filme da Disney, uma pequena dose de auto paródia (repare a descrição de Maui sobre princesas ou a cena pós créditos com Tamatoa o caranguejo gigante). 

Os critério técnicos da animação são soberbos de bons, o movimento das roupas, do mar da natureza são tão perfeccionistas que nos fazem sentir a ambientação. Chega a impressionar saber que é o primeiro trabalho em CG dos diretores. A trilha sonora, também é um espetáculo a parte, é a mais bonita dessa mais recente safra de filmes Disney. 

Um filme infantil sem dúvida, mas recomendado para todas as idades.